1954: minha Copa do Mundo preferida

Berlim, julho de 1954

1954: Alemanha dividida – Berlim dividida – e eu morando com minha família em Berlim Oriental – o setor da cidade ocupada pelos russos.  Tinha 11 anos na época e acompanhava a Copa realizada na Suíça pelo rádio.

À medida que a seleção da Alemanha Ocidental avançava, éramos instruídos na escola pelo nosso professor de classe que deveríamos nos informar sobe o evento apenas pela mídia da Alemanha Oriental – comunista.

Na prática – éramos proibidos de ouvir a emissora de rádio de Berlim Ocidental – “capitalista’ – sob pena de sermos denunciados à Stasi – a polícia política de segurança do Estado – o DOPS de lá.

Quando a Alemanha Ocidental passou pela Iugoslávia nas 4ªs (2 a 0) e pela Áustria na semi-final (6 a 1) – que, por sinal, passaria a ser a maior goleada numa semi até 2014, ao mesmo tempo em que a Hungria passava por Brasil e Uruguai (4 a 2) , aumentava a pressão na escola para que nós torcêssemos contra a Alemanha capitalista e pelos “irmãos” comunistas da Hungria.

Na véspera da final, mais uma vez o professor de classe nos advertia que era proibido ouvir a transmissão do jogo pela emissora de Berlim Ocidental e se manifestar euforicamente por uma eventual vitória alemã – nem pensar.

Então, eu e mais dois amigos, combinamos de dar um jeito de ouvir a transmissão da emissora “capitalista” às escondidas debaixo de uma mesa na cozinha do apartamento – cobrimos a mesa com cobertores para abafar o som do rádio e lá ficamos acompanhando a partida com narração do lendário Herbert Zimmermann.

Quando Helmut Rahn, faltando sete minutos para terminar o confronto, marcou o terceiro gol, que seria o gol do título – por pouco não explodimos de alegria – mas a gente se conteve e comemoramos em silêncio. Aqui mesmo, nesta página, tem o vídeo com o áudio daquela partida.

Para a Alemanha, foi uma conquista que extrapolou o futebol.  Fazia apenas nove anos que o país jazia literalmente destruído no chão. E só em 1951, após ter sido readmitido como membro da FIFA, disputou seu primeiro jogo internacional contra a Suíça num amistoso em Stuttgart.

O título de campeão mundial ajudou a reintegrar o país na comunidade das nações, além de fortalecer o moral do povo alemão que se viu motivado mais do que nunca a reconstruir o país. E foi exatamente o que acabou acontecendo.

Foi minha primeira Copa do Mundo e, logo de cara, aos 11 anos de idade, pude participar como torcedor, ainda que em silêncio, ouvindo escondido a transmissão do jogo, debaixo de uma mesa da cozinha.

Outras copas vieram, festejei cinco títulos pelo Brasil e mais três pela Alemanha. Mas minha copa preferida, por tudo que ela representou para mim e para o povo alemão, foi a de 1954 com “O milagre de Berna”.

Gerd Wenzel

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    5 thoughts on “1954: minha Copa do Mundo preferida

    1. E por isso que eu digo o futebol Alemão e o maior do Mundo, sem comparação com o futebol Brasileiro ou qualquer outro, Seleção da Alemanha por enquanto não tem mais títulos que a Seleção do Brasil mais isso e questão de tempo, pra Nationalelf superar a seleção Canarinho.

    2. Sensacional Gerd Wenzel, parabens , por nos trazer essa preciosidade, infelismente nesta copa estavamos mal de mais, mais valeu.

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