A catástrofe humanitária de Aleppo escrita com o sangue do povo

aleppo-destruidaEm 1986 a cidade síria de Aleppo foi declarada Patrimônio da Humanidade pela ONU. Trinta anos depois ela está em ruínas. Não sobrou pedra sobre pedra desta cidade da Antiguidade com 7000 anos de História.

As ruas estão cobertas de cadáveres: incontáveis vidas humanas de civis, aniquiladas pelos bombardeios aéreos e pela artilharia do regime sírio, apoiado pela Rússia e Irã, ou pelo fogo cerrado dos rebeldes sobre as áreas controladas pelo governo sírio.

Não há inocentes nesta tragédia.  Nem a ONU, nem o Ocidente, nem os árabes e muito menos o regime de Assad e seus aliados russos e iranianos. “Aquele que estiver sem pecado, atire a primeira pedra”.

Quem paga a conta com a sua própria vida pela insânia dos interesses geopolíticos internacionais são os civis. Indistintamente: crianças, mulheres, homens – todos vítimas do horror aleatório dos bombardeios que recaem sobre a população. Não há alvos militares em Aleppo. Há casas, escolas, hospitais, mesquitas.

Somente quem vivenciou tal terror, sabe do que se está falando aqui.  (É o meu caso que, ainda criança pequena, sobrevivi aos bombardeios em Berlim durante a 2ª Guerra Mundial).

Enquanto isso, consultas diplomáticas, conferências, discursos eloquentes, reuniões intermináveis são realizadas em hotéis de luxo mundo afora, inevitavelmente seguidos de jantares regados a boas bebidas e “small talks” diplomáticos.

As luzes da Torre Eiffel são apagadas em sinal de solidariedade ao povo de Aleppo. Quanta hipocrisia!  De fato, o que se apagou foi o conceito de “Comunidade Internacional”. A Comunidade Internacional, depois de Aleppo , não existe mais, razão pela qual é inútil fazer apelos a ONU ou a quem quer que seja.

Sejamos todos bem-vindos novamente a “Realpolitik”. Na guerra do Kosovo a Rússia não tinha meios de intervir e no caso da Líbia, não havia interesses russos em jogo. Mas, a Síria é um aliado tradicional da Rússia desde os tempos da União Soviética e Putin não perdeu a oportunidade de demonstrar ao Ocidente atônito que seu poderio militar continua respeitável.

Portanto, nesse caso da Síria trata-se de obter influência geopolítica, usando-se para tal este poder militar. Conversas bem-intencionadas e apelos comoventes para que todos voltem à razão em nome da humanidade, ecoam no vazio e só serão ouvidos após certos objetivos estratégicos terem sido atingidos.

Como já dizia o general prussiano Carl von Clausewitz (1780 – 1831): “A guerra é a continuação da política através de outros meios.”

É exatamente isto que Assad está fazendo com o apoio da Rússia e do Irã. Alguém, em sã consciência, acredita que o governante sírio, após destruir boa parte do seu próprio país, que resultou na morte de dezenas de milhares de compatriotas, vai entregar o poder? Ele irá até o fim, custe o que custar.

Não nos enganemos, não sejamos ingênuos. A História se escreve com sangue. Em Aleppo não foi diferente e os detentores do poder, sejam eles quem forem, estão pouco se lixando que este sangue derramado seja de crianças, mulheres e homens alquebrados, causando provavelmente a maior catástrofe humanitária do século XXI.

Enquanto isso, a Carta das Nações Unidas, repleta de louváveis intenções, está dormindo em algum lugar na sede da ONU em Nova Iorque. O último a sair apague a luz.

Compartilhe

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *