A insustentável opção de Joachim Löw

Na história recente da seleção alemã foi raro ter sido confrontado com uma notícia que tenha causado algum alvoroço ou mesmo espanto. Já faz algum tempo que o noticiário sobre a Mannschaft segue uma rotina de aparente normalidade de nem muitos altos nem muitos baixos, sem grandes sombras, mas também sem muitas luzes, exceto, claro, o título conquistado no Maracanã.

Mas hoje tudo foi diferente. E isto por conta de uma “desconvocação” totalmente inesperada pela esmagadora maioria dos que acompanham de perto os acontecimentos no âmbito da seleção alemã.

O que parecia ser um mar sereno de tranquilidade, de repente se transformou num mar revolto de polêmicas, dúvidas e questionamentos. Afinal, Joachim Löw abriu mão de um dos maiores protagonistas da Premier League, abriu mão de um jovem talento que no altamente competitivo campeonato inglês marcou 10 gols e deu 15 assistências, abriu mão do Jogador Jovem do Ano da Inglaterra.

Por que?

Durante a coletiva de imprensa, uma vez anunciados os quatro cortados,  não foram permitidos questionamentos, por sinal, um mau sinal.

Apenas mais tarde Löw dava a entender porque havia optado por Julian Brandt (9 gols e 5 assists em 34 jogos na BL) e não por Leroy Sané. Disse que, apesar do enorme talento, “…Sané não repetiu na seleção as suas brilhantes performances da Premier League, além do que lhe faltava ainda uma maior integração coletiva na seleção.” Jogadores do “establishment” da seleção alemã, como Toni Kroos por exemplo, haviam dito logo depois do jogo com o Brasil que para alguns estava faltando empenho e intensidade física. O endereço da crítica era obviamente Leroy Sané.

De outro lado, há dois anos durante a Eurocopa, Joachim Löw lamentava que não tinha disponível no seu elenco talentos dribladores que dominem o quesito drible e que sejam capazes de prevalecer sobre defensores adversários. Ou seja: que possam fazer a diferença contra uma equipe que, por exemplo, jogue com uma linha de cinco defensores e dois volantes. É sempre bom lembrar que esta é justamente uma das especialidades de Leroy Sané e ele cansou de mostrar isto na Premier League.

Outra coisa que chama a atenção nesta “desconvocação” é que não faz muito tempo, Oliver Bierhoff, manager da delegação, havia declarado publicamente que “…se trata de levar a melhor equipe com os melhores jogadores para esta Copa do Mundo.”

Por este critério, Sané deveria ter tido a preferência e não Brandt, um bom jogador com lampejos que vez por outra aparecem.

Pode se perguntar também por qual motivo Sané rende tanto sob o comando de Pep Guardiola e rende tão pouco sob a orientação de Joachim Löw. Tenho para mim que o técnico catalão sabe dilapidar um diamante, qualidade que parece faltar ao treinador alemão que, por isso mesmo, privilegia o jogo coletivo em detrimento do brilho individual deste ou daquele. Talvez isto explique por que na Mannschaft há muito tempo não aparece um craque de verdade, alguém que com seu talento possa fazer a diferença numa partida decisiva e que, ao mesmo tempo, se integre nas demandas do jogo coletivo.

E tem ainda o fator político.

Colegas em Appiano, que acompanham de perto o desenrolar dos acontecimentos, como Peter Ahrens do “Der Spiegel”, por exemplo, levantaram uma questão pertinente:

Como Joachim Löw, já na pré-lista dos 27, não havia convocado o atacante Kevin Volland (Bayer Leverkusen), e como seus colegas de clube Jonathan Tah e Bernd Leno foram dispensados agora, o treinador alemão preferiu ficar com Julian Brandt, também do Leverkusen, para evitar um desgaste maior com a Diretoria  do Leverkusen e da própria Bayer, mantenedora do clube, onde Rudi Völler tem considerável voz ativa. É um fator de ordem política que também pode ter influenciado na decisão de Löw, apesar das afirmações de Bierhoff que “…jogadores são avaliados pelos seus méritos”.

Seja como for, abrir mão de um talento extraordinário, ainda que jovem e inexperiente, numa competição como a Copa do Mundo, é insustentável e a Mannschaft pode pagar muito caro por este equívoco cometido pelo comando técnico da atual campeã mundial.

Gerd Wenzel

 

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    4 thoughts on “A insustentável opção de Joachim Löw

    1. Concordo.. em um jogo enroscado, um drible pode decidir. Sané tem drible, desequilíbrio, e assistência. Não faz sentido algum prescindir dele, pois, neste país, ele é único.

    2. Sané simplesmente não mostrou serviço pela seleção, totalmente plausível a não convocação dele, até o Gnabry mostrou mais serviço que ele na seleção!!

    3. Gerd, por mais que Sané ainda não tenha mostrado todo seu potencial na Mannschaft, deixá-lo de fora da Copa do Mundo é um erro muito grave (não que Julian Brandt não mereça fazer parte da relação – por mim, o quarto cortado da relação seria Sebastian Rudy). Eu entendo que o jogador precisa priorizar o jogo coletivo e de intensidade física, mas, sem o recurso do drible, a Alemanha fica extremamente previsível e outras seleções já perceberam como neutralizar e/ou dificultar o jogo proposto por Low (a Áustria mostrou como isso é possível no último amistoso). Toda grande seleção tem um jogador “indisciplinado”, capaz de mudar a história de um jogo com um drible, e a Alemanha, cedo ou tarde, terá que dar mais espaço para os mais habilidosos, mesmo que isso signifique modificar um estilo de jogo vitorioso, mas extremamente pragmático…

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