Alemanha embarca para a Rússia em clima pesado e com desconfiança da torcida

vitória magraDeutsche Welle faz um “resumo da ópera” sobre o momento da seleção campeã mundial que embarcou nesta terça-feira rumo à Rússia com o objetivo de defender o título conquistado no Brasil. Pela matéria, chega-se à conclusão que vai ser muito difícil, tantos são os problemas ainda não resolvidos.

A Alemanha é a atual campeã mundial, não perde um jogo oficial desde a semifinal da Eurocopa de 2016 e é a atual líder do ranking da Fifa. No entanto, mesmo considerada uma das favoritas na Copa de 2018, embarca à Rússia, nesta terça-feira (12/06), com diversos problemas na bagagem, num certo clima de desconfiança.

Os dois amistosos preparatórios para o Mundial não encheram os olhos do torcedor e renderam críticas da imprensa esportiva alemã e até dos próprios jogadores da seleção. Contra a Áustria, em jogo que marcou o retorno de Manuel Neuer, que não atuava desde setembro de 2017, a Alemanha chegou a ser dominada em diversas fases da partida, principalmente na segunda etapa, e perdeu de virada, por 2 a 1. A Nationalelf não perdia para os vizinhos austríacos há 32 anos (dez jogos).

Desde o fim da impecável Eliminatória Europeia, na qual a seleção alemã venceu todas as dez partidas e sofreu apenas quatro gols, num grupo que tinha ainda Irlanda do Norte, República Tcheca, Noruega, Azerbaijão e San Marino, os comandados do treinador Joachim Löw amargaram cinco jogos sem vitórias. Com exceção da Áustria, os outros quatro adversários foram de grande calibre: Inglaterra (0x0), França (2×2), Espanha (1×1) e o revés por 1 a 0 frente ao Brasil, em Berlim, que interrompeu uma sequência de 22 jogos sem derrotas – a segunda mais longa da história da Alemanha.

E nada como um último amistoso, em casa, contra um adversário notoriamente inferior para embarcar para o Mundial cheio de moral. Mas o impulso de confiança, aquela simbiose de clima de Copa entre o povo e a seleção, não veio contra a Arábia Saudita, 67ª no ranking da Fifa e, segundo este critério, a segunda pior seleção classificada ao Mundial (a anfitriã Rússia é 70ª, mas não disputou as Eliminatórias).

O primeiro tempo até foi decente, e os gols de Timo Werner e Thomas Müller alegraram a arena lotada do Bayer Leverkusen. Mas a vitória magra por 2 a 1, que no fim quase se transformou num amargo empate, levantou preocupações com o desempenho da equipe.

“Löw leva muitos problemas à Rússia”, escreveu a revista esportiva Kicker, que criticou a falta de vontade e de competitividade da seleção alemã. E os próprios jogadores foram autocríticos.

khedira1“Quanto mais perto da Copa, mais o desempenho conta. E foi como contra a Áustria: no primeiro tempo fomos bem, no segundo erramos quase tudo”, disse o volante Sami Khedira, um dos pilares do time de Löw. “Tivemos muitos erros de passe, assim será difícil [na Copa]. Não sei porque paramos no segundo tempo. A equipe tem potencial e vai mostrar.”

“Dava para ver o que queríamos, mas também que nem tudo está funcionando. Deveríamos ter marcado mais do que dois gols”, afirmou o meia Toni Kroos, que já havia criticado a postura da equipe depois da derrota para o Brasil, em março. “Permitimos muitas chances contra um adversário fraco. Pela sua qualidade, a Arábia Saudita teve algumas chances demais de gol.”

“Não estou preocupado”, disse Löw. “Se precisamos melhorar? Com certeza. Não aproveitamos diversas chances e permitimos muitos espaços ao adversário. Mas quando o torneio começar, estaremos lá. Festas são celebradas quando acaba, não quando começa.”

özil gündoganAlém da questão esportiva, fora de campo a preparação alemã foi turbulenta – e culminou em vaias ao meia Ilkay Gündogan em todas as vezes que tocou na bola. Uma fotografia tirada por Gündogan e Mesut Özil, jogadores de ascendência turca, com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, causou uma indisposição na política. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, pronunciou-se sobre o tema, e os dois atletas chegaram a conversar com o presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier. As reações foram de indginação nas redes sociais, com torcedores pedindo o corte dos dois jogadores e dizendo que se recusariam a torcer pela seleção na Copa.

O contexto é complexo. Ambos os atletas possuem raízes turcas, não cantam o hino alemão antes dos jogos e, deliberadamente ou não, serviram de palanque político para Erdogan – justo num período em que Berlim e Ancara enfrentam atritos diplomáticos. Erdogan é visto por muitos na Alemanha como um autocrata, que não defende os valores democráticos e oprime seu povo. E uma de suas bases eleitorais é justamente na Alemanha, onde residem mais de 1,4 milhão de eleitores turcos.

Gündogan chegou a se desculpar e justificou a fotografia, mas Özil tem fugido da imprensa. “As reações me afetaram, principalmente os insultos pessoais”, disse Gündogan, que garantiu respeitar os valores alemães. “Entendo que não precisam achar boa a ação. Todo mundo tem sua opinião. Sinto-me privilegiado por ter nascido e crescido na Alemanha – e de poder jogar por este país.”

O assunto foi discutido também internamente na Federação Alemã de Futebol e, reiteradamente, questionado pelos jornalistas nas coletivas de imprensa diárias. Löw, no entanto, mostrou-se irritado com as vaias no amistoso contra a Arábia Saudita. “Já deu o que tinha que dar”, disse. “Um jogador da seleção alemã ser vaiado não ajuda em nada e não me agrada nem um pouco.”

Basicamente, a única notícia boa depois dos amistosos é que Marco Reus não se lesionou e, finalmente, poderá disputar seu primeiro torneio com a seleção alemã. O zagueiro Jérôme Boateng atuou no primeiro tempo contra os sauditas e, aparentemente, está recuperado de sua lesão muscular, enquanto Özil foi poupado depois que sentiu uma pancada no joelho.

Apesar dos problemas internos, a falta de qualidade no futebol apresentado nos dois amistosos e as dúvidas táticas para Löw, a grande parte dos torcedores se apega a uma mística, que foi repetida nas redes sociais por diversas vezes nos últimos dias. A Alemanha é uma seleção “copeira”, ou seja, cresce durante torneios “mata-mata”. E, de fato, a Nationalelf chegou a 13 semifinais em 18 Copas disputadas.

Na primeira fase, a Alemanha estreia contra o México, em 17 de junho, no estádio Luzhniki – o mesmo em que será disputada a grande final. Na sequência, joga contra a Suécia, em 23 de junho, em Sochi, e encerra a fase de grupos contra a Coreia do Sul, em 27 de junho, em Kazan.

por Deutsche Welle ( http://www.dw.com/pt-br/not%C3%ADcias/s-7111 )

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