Borussia Dortmund: combate em vez de criação

Mario Götze no banco de reservas, e Shinji Kagawa fora dos planos: assim o técnico Lucien Favre montou o meio de campo do Dortmund. A mudança de estilo tem um preço.

Nenhum outro jogador incorpora melhor o novo Borussia Dortmund do que Thomas Delaney. Uma cena, na rodada de abertura da Bundesliga, deixou isso bem claro. Após o gol da virada sobre o Leipzig, deixando o placar em 2 a 1, o meio-campista reuniu os jogadores em pleno gramado para fazer um discurso motivacional. A impressão que fica é que o time está bem armado. No final, o placar foi 4 a 1 para o Borussia.

Delaney chegou em Dortmund no último mês de julho – antes ele defendia o Werder Bremen. O jogador representa uma mudança de estratégia, tão exigida pelo presidente do clube Hans-Joachim Watzke antes do início da temporada. “Temos que melhorar no aspecto mental, liderança e agressividade”, disse Watzke à revista Schwartzgelb.

Ou seja: mais combatividade em vez de um futebol requintado, parece que foi esse estilo que o novo técnico implementou. Tal mudança ficou evidente no meio campo da equipe.  Favre teria opções criativas para utilizar, porém deixou Mario Götze no banco de reservas diante do Leipzig e do Hannover. Julian Weigl foi para o time B para pegar ritmo de jogo. Shinji Kagawa e Sebastian Rode nem foram relacionados para o elenco do Dortmund. A ideia por trás dessas opções é: um meio campo mais compacto e forte na marcação. Tudo isso em detrimento do futebol mais vistoso.

Contra o Leipzig, Favre utilizou seu novo meio de campo e não teve problemas. Axel Witsel chegou em Dortmund faz três semanas e já pertence ao time titular, assim como Delaney. Mahmoud Dahoud completa essa trinca no meio de campo. Dahoud já trabalhou com Favre antes,  no Borussia Mönchengladbach, mas contra o Hannover não funcionou. Faltou justamente criatividade.

Favre é fanático por organização e espera que todos joguem com disciplina na marcação. Ele transmite instruções simples e claras aos seus comandados. E assim caracteriza o meio de campo do Dortmund com tarefas modestas a serem cumpridas.

Como meio campista mais recuado, Witsel tem como função proteger a defesa. É ele quem começa a jogada na frente da zaga. Contra a agressiva marcação sob pressão do Leipzig, o belga sempre  aparecia recuado no campo de defesa do Dortmund e pedia a bola para seus companheiros de equipe. 90% de precisão nos passes  sinaliza que Witsel pode se tornar uma peça chave na construção e armação de jogadas.

Como jogador de ligação, Dahoud utiliza toda sua velocidade. Contra o Leipzig, ele buscava a bola no campo de defesa e também corria para atacar a área do adversário. No quesito retomada de bola Dahoud ficou acima da média. Isso se deve principalmente à sua agressividade para ficar com a segunda bola (rebote) – foram cinco desarmes.

Delaney atua de maneira mais ofensiva do que Witsel e Dahoud. Seu papel é levar a bola do meio de campo ao ataque, atuando nas costas dos meio-campistas adversários. Porém o dinamarquês também inicia o combate logo após a perda da posse de bola. Nenhum outro jogador do Dortmund interceptou mais passes do Leipzig: um total de quatro. Suas qualidades defensivas são o motivo por ele ter sido escalado pelo técnico no lugar de Götze.

Já com a bola no pé, fica claro que Delaney não é dos mais habilidosos. Ele nem sempre fica confortável em segurar a bola ao receber um passe de Witsel. No campo adversário, o meia não chega a representar uma ameaça. No quesito criar chances, apenas uma assistência para um chute ao gol e vários passes errados.  Aconteceu na partida frente ao Leipzig e também no jogo contra o Hannover. Criatividade não é o forte de Delaney.

Delaney exemplifica a vulnerabilidade da nova formação do meio de campo auri-negro. Todos os jogadores têm como ponto forte a disciplina tática e a forte marcação. Quando tiverem que mostrar criatividade, aí eles expõem suas fraquezas. Nenhum desses três jogadores é capaz de atuar como garçom, ou seja, dar o passe final que resulta em gol. E por conta disso, apesar de mandar duas bolas na trave, o Borussia Dortmund não saiu do 0 a 0 na partida com  Hannover.

reus traveMais para frente, talvez Favre volte a sua atenção para alguns jogadores que ficaram de fora das primeiras partidas contra o Leipzig e o Hannover. Com Götze e Kagawa, o Dortmund tem dois meias aptos a darem assistências. Götze poderia atuar ao lado de Witsel: o belga constrói a jogada no campo de defesa, e Götze traz a bola ao ataque, por meio de dribles ou passes na área adversária, fazendo a ligação com Marco Reus. Essa divisão de trabalho se encaixaria no estilo de atacar mais direto que o técnico procura.

No ataque, Marco Reus era até agora a principal arma ofensiva do Dortmund. Reus foi eleito o melhor jogador da primeira rodada. Só que, no último dia 28, o Borussia contratou o atacante Paco Alcacer por empréstimo junto ao Barcelona.

Uma aquisição extremamente necessária, mesmo se levando em consideração a nova mentalidade combativa da equipe. Isso porque o Borussia terá que jogar de forma mais criativa tanto no meio de campo quanto no ataque especialmente quando se deparar com times mais defensivos, com retrancas bem armadas. É o que se viu nesta sexta-feira diante do Hannover. Além de não terem sido criadas muitas oportunidades de gol, o ataque auri-negro teve apenas nove finalizações, sendo apenas três no alvo.

Talvez já esteja na hora de Lucien Favre repensar os seus conceitos.

 

De spiegel.de

Tradução: Rodrigo Wenzel   

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