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6/8/2008
 

Olimpíadas de Pequim -

com os nervos à flor da pele  

 
Gerd Wenzel
 
Os Jogos Olímpicos costumam ser cantados em prosa e verso como um gigantesco exemplo da confraternização entre os povos onde todos os participantes, a par das competições esportivas, têm a oportunidade de conviver com outras culturas e expressar-se livremente sobre qualquer tema, num ambiente de liberdade e respeito.  
  

No que se refere à última parte do dito acima, não será o caso dessas Olimpíadas de Pequim.           

  
Cada um entende os jogos como quer: o Ocidente acha que será uma oportunidade única de levar valores democráticos à China contribuindo assim para uma futura abertura do regime; o partido comunista chinês entende que as Olimpíadas são uma clara demonstração de sucesso do seu modelo político e econômico e o mundo dos negócios espera que os jogos terminem logo para poder continuar faturando alto às custas da mão de obra barata das massas operárias chinesas oprimidas por esse casamento desavergonhado entre comunismo e capitalismo.  
   
Sem esquecer que os atletas foram orientados pelos seus respectivos Comitês Olímpicos a limitar as suas atividades às competições esportivas, ou seja, nada de ficar dando palpite sobre o Tibet, direitos humanos, liberdade de expressão, etc. e tal.  Que tratem de quebrar recordes na maçaroca hiper-poluída dos ares da capital chinesa e não venham com desculpas esfarrapadas.     
 
Não bastasse tudo isso, o esquema de segurança montado pelo governo e partido não tem paralelo na história recente dos Jogos Olímpicos. Forças policiais controlam ônibus e metrô e veículos com placas de fora passam por intensivos controles. Calcula-se que mais de 30.000 vigilantes estão em ação nas estações rodoviárias para imediatamente prender qualquer suspeito.         

      

O acesso à praça da Paz Celestial só é possível depois de passar por um rigoroso controle policial.  Jornalistas estrangeiros só podem visitar a praça depois de notificar previamente a polícia e obter uma autorização especial. A ditadura chinesa quer evitar a todo custo que sejam feitas entrevistas espontâneas.

           

Dezenas de milhares de câmeras de vídeo registram tudo na capital chinesa. Calcula-se que foram instaladas mais de 200.000 câmeras para detectar qualquer movimento estranho. 34.000 soldados foram destacados para garantir a segurança em Pequim, inclusive forças especiais para defesa de ataques nucleares, químicos e biológicos.

  

Não muito longe do Estádio "Ninho de Pássaros", o exército chinês montou diversas unidades de mísseis terra-ar para prevenir eventuais ataques aéreos, seja de quem for.

                 

Os chineses estão com os nervos à flor da pele porque acham que setores da mídia ocidental estão louquinhos para apontar erros na organização dos Jogos. Por isso, os anfitriões querem que tudo funcione à perfeição. Para atingir esse objetivo da "organização perfeita" pagam qualquer preço, inclusive o de mostrar ao mundo uma falsa realidade: Pequim foi transformada numa cidade-modelo limpa ao extremo, mendigos e sem-teto foram expulsos, dissidentes estão presos, protestos não são permitidos e os soldados marcham ao lado do "Ninho de Pássaros".   

   

E assim a alegria espontânea e contagiante de tantas outras Olimpíadas corre o sério risco de ficar pelo caminho dando passagem à uma burocracia robotizada e cinzenta, emblemática para a poluição ambiental que cobre a cidade.  
 

Em 2001, quando Pequim foi agraciada com a nomeação, as autoridades chinesas prometeram os "melhores" jogos olímpicos de todos os tempos. O discurso agora é outro: a promessa é que teremos as Olimpíadas "mais seguras". Então tá. Para bom entendedor, um pingo é letra.      


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