Corrupção – um testemunho

O Estatuto do Estrangeiro vigente no Brasil me impede de fazer qualquer manifestação política e partidária. Mesmo se eu tivesse me naturalizado para ser cidadão brasileiro, teria que arcar com  uma série de restrições oriundas da época dos anos 60 e 70, que me impediram e me impedem até hoje de me tornar brasileiro de corpo e alma. Prefiro continuar sendo alemão com todos os direitos da cidadania alemã do que ser um brasileiro “meia boca”.

Isto posto, não vou me manifestar sobre o atual momento partidário brasileiro – ou seria o momento do justiçamento? Mas, deixa prá lá.

Prefiro me manifestar sobre o tema em voga: a corrupção que é o motor deste justiçamento que atinge um grupo e não atinge o outro, ou pelo menos, até agora, não atingiu o outro.

Quando cheguei ao Brasil com minha mãe, fugindo da Alemanha Oriental com uma mão na frente e outra atrás, o patriarca da família que patrocinou nossa viagem e nos acolheu aqui em São Paulo no bairro do Higienópolis, me disse com todas as letras quando completei 14 anos: “Gerd, o Brasil é um país maravilhoso. Só que tem um pequeno detalhe – nunca caia na mão da polícia e jamais tenha uma contenda com a justiça. O Brasil só serve para uma coisa: é para ganhar dinheiro, porque quem tem dinheiro tem tudo, mesmo porque você consegue comprar qualquer coisa e qualquer pessoa com dinheiro”. E completou: “Não seja idealista. O país não serve para isso. Você vai bater de frente com quem manda no Brasil.”

Palavras ditas em 1957.

Para o bem ou para o mal, não segui o seu conselho na minha juventude. Fiz o curso de Teologia e de Ciência da Religião na Faculdade da Igreja Metodista Livre e fui ser pastor da Igreja Presbiteriana de Governador Valadares, onde oito meses depois de ser empossado, fui expulso e denunciado pelos próprios evangélicos aos militares em 1968, que logo após a edição do AI 5 em dezembro daquele ano, me prenderam para averiguações. Só não fui expulso do Brasil na época, por intervenção direta do Embaixador da Alemanha Federal. Está tudo registrado no jornal “O Estado de Minas” e no “Brasil Presbiteriano”, além do “Estado de São Paulo”, como não poderia deixar de ser.

E segue a vida. Fui trabalhar em empresas alemãs transnacionais e acabei aprendendo alguma coisa sobre corrupção no Brasil dos anos 70.

Por exemplo: ao atuar na área comercial de uma indústria química e farmacêutica, logo fiquei sabendo que, especialmente para hospitais do governo, você para vender precisa dar “algum” e para receber necessita dar “mais algum”. E claro, em dinheiro vivo, num pacote ou numa caixa de sapatos. E isto em pleno regime militar que atualmente é tido por alguns como exemplo supremo de honestidade.

Ainda nos tempos da ditadura, um alto executivo desta mesma empresa, diretor da divisão farmacêutica, num dado momento me chamou para uma reunião  e sem meias palavras disse: “Sr. Wenzel, o sr. vive no Brasil há mais de 20 anos, mas até agora o sr. não aprendeu que neste país impera a cultura da corrupção ou da incompetência, ou as duas coisas juntas”. Estarrecido, protestei, em vão. Mesmo porque ele me mostrou provas tanto de uma coisa como de outra.

Pouco depois fui trabalhar em outra empresa, também alemã, do setor farmacêutico. Outro executivo me desafiou: “No Brasil, basta levar uma maleta com um milhão de cruzeiros (moeda da época) que você faz qualquer negócio.” E pelo que soube depois, ele fazia mesmo.

Quando me estabeleci, por conta própria, como organizador de eventos, tive a oportunidade de realizar uma convenção de vendas com aproximadamente 500 funcionários em Cancún no México. Apresentei um orçamento à presidência da empresa que, em números redondos, resultava num custo total de aproximadamente US$ 1 milhão. Ao que o presidente me respondeu: “Um milhão não, dois!” Para bom entendedor meia palavra basta e outra empresa organizadora acabou fazendo o evento.

Certa vez, apresentei um projeto cultural para uma grande montadora automobilística dos anos 90 (uma joint-venture alemã e norte-americana) e, o então presidente da multinacional não teve a menor cerimônia em dizer para mim: “Não me venha com um projeto que dê menos de US$ 1 milhão e aí conversamos.”

E por aí vai. Fiz negócios sem corrupção sim, mas, em compensação, deixei de fazer um número bem maior de negócios por simplesmente não aceitar as regras vigentes do jogo. E segue a vida, sem lamúrias.

O que realmente me espanta, é que de repente se descobriu que existe corrupção no Brasil como se ela jamais tivesse existido antes. E ainda tem gente que se ilude, achando que tirando este ou aquele do poder, o Brasil vai se tornar um país santo e imaculado, livre de todas as mazelas, governados daqui para frente pelos vestais da moralidade pública.

É muita ignorância e/ou muita má fé para o meu gosto. Tenha santa paciência!  E obrigado pela paciência de ler este artigo.

 

 

3 thoughts on “Corrupção – um testemunho

  1. Não conhecia o artigo … li porque sabia que seria coerente e verdadeiro como o sr sempre mostra em seus comentários !

  2. Havia lido este artigo em 2016 e ocorreu-me de lê-lo outra vez. Obrigado por compartilhar a experiência, Sr. Wenzel.

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