Croácia, a seleção do caos ou como chegar à uma final de Copa quebrando paradigmas

Na última quarta-feira, o jornal inglês The Guardian publicou um artigo sobre a seleção da Croácia no qual deu provavelmente a melhor definição sobre a equipe que alcançou a final da Copa do Mundo 2018: “os mestres do improviso”.

Explica-se: se há uma seleção que certamente não se planejou (e nem se esmerou no trabalho fora de campo) para estar em uma decisão de Mundial, esta equipe foi a Croácia.

Em um país de população pequena, no qual o futebol está a muito tempo largado e mal cuidado, com corrupção endêmica nos bastidores, beira o impossível que aconteça o que aconteceu na Rússia neste mês de competição.

No entanto, o time de Modric, Rakitic e outros bons jogadores passou por três prorrogações e agora tem o direito de buscar seu primeiro título mundial contra a França, neste domingo, no Estádio Luzhniki, em Moscou.

“A Croácia realmente é milagre, pois times como Argentina, Brasil, Alemanha, Portugal e Espanha foram caindo. Em muitos aspectos a Croácia é um milagre. Tomara que esse milagre dure por mais tempo”, analisou o técnico Zlatko Dalic.

“Estratégia, lógica e ordem têm pouca importância no futebol croata. E muitos sugerem que esse ethos – ou a falta dele – acaba se traduzindo em campo. Ou como é possível explicar que um time que tem simplesmente alguns dos melhores meio-campistas do mundo simplesmente se recuse a ficar com a bola nas partidas?”, questiona o Guardian.

Talvez “milagre” seja mesmo a melhor definição…

Veja como a Croácia chegou à final no meio da bagunça:

O TÉCNICO

dalic7 de outubro de 2017. A Croácia, que vinha de um frustrante empate contra a Finlândia, se preparava para o duelo decisivo contra a Ucrânia, fora de casa, pela última rodada das eliminatórias da Copa do Mundo. Se perdesse, estaria fora do Mundial.

Eis que chega a bomba: o técnico Ante Cacic foi demitido!

Para seu lugar, chegou Ztlako Dalic, que havia deixado o Al-Ain, dos Emirados Árabes. O treinador, que segue assinou contrato ou acertou salário, foi apresentado aos jogadores no aeroporto e todos viajaram para Kiev para tentar a sorte.

Um roteiro que tinha tudo para ser trágico, porém, acabou se transformando.

A Croácia conseguiu vencer a Ucrânia por 2 a 0 e terminou em 2º lugar do grupo, indo para os playoffs. No mata-mata valendo vaga na Rússia, o time xadrez bateu a Grécia e carimbou o passaporte para a competição.

Já na Copa, aconteceu o que todos já sabem: após uma ótima primeira fase, o time croata foi passando pelos mata-matas no “bumba meu boi”, atravessando três prorrogações e duas disputas de pênalti, e agora está na final.

Tudo isso com Dalic não tendo nem 10 jogos oficiais pela seleção!

Dificilmente alguém irá acreditar que tudo isso estava planejado…

A BAGUNÇA EM CASA

Em seu artigo no The Guardian, o jornalista Aleksandar Holiga definiu bem como poucos o atual estado de abandono do futebol croata.

“Não há qualquer tipo de plano a longo ou médio prazo, não há qualquer identidade, qualquer sistema estabelecido. Os croatas tornaram-se mestres do improviso”, escreveu.

“Obviamente há bons treinadores – isso é facilmente notado pelos ótimos jogadores que surgiram nos últimos anos -, mas não há um programa geral que eduque sistematicamente e distribuia jovens jogadores pelo país”, prosseguiu.

“Poucos estádios foram construídos ou reformados nas últimas três décadas. A mesma situação ocorre com centros de treinamento. As instalações na maioria dos lugares são apenas básicas, nos melhores casos; a maioria dos gramados é péssima, e os clubes lutam diariamente para conseguirem ao menos fechar no azul”, complementa.

O autor prossegue, piorando o cenário.

“Em todo esse tempo, o investimento da Federação em infraestrutura e futebol de base foi reduzido ao mínimo. Há dois anos, eles deram a Romeo Jozak, diretor técnico da época, a missão de montar um plano de desenvolvimento a longo prazo para o futebol croata, como o que implanto Michel Sablon na Bélgica. Jozak foi demitido antes mesmo de poder apresentar seu projeto”, conta.

Para Dalic, é hora de fazer algo a respeito.

“Nós não temos estádios e gramados adequados para jogar partidas importantes. Mas nós temos o tipo de jogadores que têm desejo, que querem conquistar coisas grandes. Nós temos um talento de natureza, temos caráter. No momento, isso basta. Mas, sobre a falta de infraestrutura, temos que mudar algumas coisas quando voltarmos daqui”, bradou.

HOOLIGANS NAZISTAS

Fora todos os problemas citados acima, houve ainda inúmeros conflitos entre torcedores ultra e a HNS (Federação Croata de Futebol), por acusações mútuas de corrupção e violência.

Isso culminou no triste episódio dos sinalizadores atirados em campo na partida entre Croácia e República Tcheca, pela Eurocopa de 2016, que terminou com o então treinador Ante Cacic chamando os fã de “hooligans nazistas.

Presidente da HNS, o ex-atacante Davor Suker, artilheiro da Copa do Mundo de 1998 e um dos maiores nomes do futebol croata, diz que tenta há anos acabar com os hooligans no futebol de seu país, mas não consegue ter sucesso.

E, mesmo com todo esse abandono e conflito, o país chegou a uma final de Copa.

A POPULAÇÃO PEQUENA

Segundo a última estimativa, a população da Croácia é de apenas 4,15 milhões.

Isso faz o país o menos populoso a chegar a uma final de Copa do Mundo depois do Uruguai, em 1930, com 1,7 milhão de habitantes.

“As pessoas frequentemente se perguntam como pode uma nação de apenas 4 milhões gerar tantos futebolistas de classe mundial. E uma resposta precisa, fora dos clichès esotéricos sobre predeterminação natural ou predisposição genética, nunca foi encontrada por ninguém’, observa Holiga no Guardian.

Treinadores, dirigentes e jogadores também não parecem ter a resposta.

Quando perguntado sobre o tema na zona mista, após a vitória sobre a Inglaterra, na semifinal, o zagueiro Dejan Lovren preferiu fazer piada.

“Acho que é porque temos mães e pais muito bons, e eles fazem amor muito bem”, gargalhou.

Talvez essa seja mesmo a melhor resposta.

O CASO MODRIC

modricCom todos esses problemas, a Croácia ainda conseguiu se classificar para a Copa e, de maneira incrível e inesperada, alcançar a final. Tudo isso com seu principal jogador ameaçado de ir para a cadeia depois do torneio. Sim, Modric pode ser preso por falso testemunho na investigação em cima de Zdravko Mamic, seu ex-empresário no início da carreira, que está foragido da Justiça croata.

Ou seja: o camisa 10 passou o Mundial inteiro tendo que lidar com esse problemão em sua cabeça.

No entanto, isso não parece tê-lo afligido tanto.

Com um futebol de alto nível, principalmente nas partidas de quartas de final e semifinal, o craque do Real Madrid foi diretamente responsável por carregar seu time à decisão da Copa.

E seu esforço é facilmente demonstrado peles números: até agora, ele correu nada menos do que 63km no torneio, mais do que qualquer um dos mais de 700 atletas inscritos na competição da Fifa.

Imagina se ele estivesse com a cabeça 100%!

O CASO KALINIC

kalinicAlém do caso Modric, o técnico Zlatko Dalic ainda teve que lidar com o caso Kalinic.

Para quem não se lembra, o centroavante do Milan foi convocado para o Mundial da Rússia, mas acabou cortado do elenco ainda na fase de grupos pelo técnico Zlatko Dalic por um motivo bizarro.

Kalinic deixou Dalic muito irritado por ter se recusado a entrar em campo nos cinco minutos finais do triunfo diante da Nigéria, em Kaliningrado, pela 1ª rodada fase inicial do torneio.

Por decisão do treinador, ele foi mandado de volta para casa, e o elenco xadrez ficou com apenas 22 representantes, já que não era mais possível fazer substituições na lista.

Questionado sobre o tema na zona mista do Luzhniki, na última terça-feira, o diretor de comunicação da Croácia, Tomislav Pacak, disse à ESPN que ainda não tem uma resposta definitiva sobre o tema, mas deixou uma pista.

“Vamos ver. Os jogadores irão decidir”, limitou-se a dizer.

Por ter sido inicialmente inscrito, Kalinic tem direito a uma medalha de prata ou de ouro por sua participação na Copa, mesmo sem ter entrado em campo. Contudo, o fato dele receber ou não a honraria terá que passar pelo crivo dos jogadores.

O CASO VIDA

vidaE se os problemas da seleção xadrez já não pareciam o bastante, ainda houve o caso do zagueiro Domogaj Vida, um dos heróis da classificação contra a Rússia nas quartas, que resolveu postar um vídeo ao lado do scout Ognjen Vukojevic em que os dois saúdam a Ucrânia, inimiga dos russos nos últimos anos.

“Glória à Ucrânia”, disse Vida no vídeo. A frase é quase que um ‘mantra’ do exército ucraniano e de nacionalistas que lutam contra a Rússia na Crimeia, onde uma parte da população que fala russo quer a independência dos ucranianos.

“Essa vitória é para o Dinamo de Kiev e para a Ucrânia”, completa Vukojevic, que também foi jogador da seleção croata e até então fazia parte da comissão técnica.

A Fifa investigou o caso e Vida ficou ameaçado de não poder mais jogar na Copa caso fosse punido, mas escapou de levar gancho e atuou normalmente na semi – está liberado também para a final contra a França. Ele acabou pedindo desculpas.

“Eu sei que cometi um erro e quero pedir desculpas novamente ao povo russo. Desculpe, esta é a vida. Precisamos aprender com nossos erros”, discursou, ao canal Rossiya 24.

Vukojevic, por sua vez, foi demitido…

 

por espn.com.br

Revisão: Gerd Wenzel

Compartilhe

    Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *