Uma breve história do crepúsculo dos deuses

gottesdämmerung

 

Dos 60.000 espectadores que estavam no Signal Iduna Park no dia 22 de março de 2017 para ver o amistoso entre Alemanha e Inglaterra e, de quebra, a despedida de Lukas Podolski da seleção alemã, certamente ninguém poderia imaginar que aquela partida representaria a última vitória da Mannschaft sobre um dos “grandes” do futebol mundial.

Podolski, ao menos, fez a sua parte marcando o gol da vitória germânica.

Alguns meses depois, a “jovem guarda alemã” disputaria o Campeonato Europeu sub-21 e, para surpresa geral, conquistou o título, após excelente campanha coroada com uma vitória na final sobre a Espanha por 1 a 0.

Para a Copa das Confederações 2017, foi mandado a campo um time rejuvenescido que também fez bonito. Venceu o torneio após excelente campanha: um empate e quatro vitórias. Ganhou do Chile na final por 1 a 0.

E nas eliminatórias para a Copa do Mundo, num grupo fraco, a Mannschaft a rigor não teve adversário. Dez jogos, dez vitórias, 43 gols marcados, 4 sofridos. Era o ápice de uma equipe que parecia estar fadada a repetir o feito de 2014.

Mas, ao contrário das expectativas da maioria dos especialistas, a partir daí a campeã mundial deu início à sua via crucis, ou, como queiram, ao seu crepúsculo.

De nov/2017 a mar/2018 encarou quatro adversários de respeito: Inglaterra, França, Espanha e Brasil. Não venceu nenhum: foram três empates e uma derrota para o Brasil por 1 a 0.

Veio a convocação sem grandes surpresas: dos campeões da sub-21 ninguém foi chamado, dos campeões da Copa das Confederações foram chamados dez, mas como se veria mais tarde, a maioria ficou curtindo um banco de reservas, entrando apenas ao final do jogo,como por exemplo, Süle, Brandt e Goretzka. Ter Stegen nem jogou. Leroy Sané, talvez o jogador alemão jovem de maior talento, foi dispensado.

Joachim Löw privilegiou a velha guarda, a começar por Manuel Neuer que, quando chegou a Appiano na Itália para os preparativos da Mannschaft, estava há 259 dias sem jogar uma única partida.

Entretanto, um dia após a chegada de ter Stegen à concentração, Löw declarava alto e bom som que “…se Neuer for para a Copa, é para ser titular”. Ter Stegen, que havia feito uma excelente campanha pelo Barcelona foi degradado à condição de reserva sem sequer ter tido a oportunidade de disputar a posição.

É fácil imaginar o que estas decisões de Löw, a saber, a dispensa de Sané e a degradação de ter Stegen, possam ter provocado na cabeça dos mais jovens como Kimmich, Süle, Goretzka, Brandt e Werner que a partir daí ficaram sabendo que, em caso de dúvida, Löw provavelmente optaria por um veterano em vez do sangue novo.

Privilegiar os medalhões, mesmo após ficar evidente que não estavam rendendo à altura, como, por exemplo, Boateng, Hummels, Khedira, Müller e Özil, foi uma demonstração clara de que a comissão técnica comandada por Joachim Löw não tinha um plano B para qualquer eventualidade.

Como ficou demonstrado mais tarde, a única alternativa que havia era colocar o veteraníssimo Mario Gomez  e Julian Brandt ao final das partidas para tentar salvar a pátria. Contra a Coreia do Sul, Joachim Löw cometeu ainda a impropriedade de escalar Goretzka na ponta-direita, posição com a qual o jogador não tem nenhuma intimidade.

Aos equívocos de Joachim Löw, podem ser somados outros fatores, tais como:

Um certo “laissez faire”, uma mentalidade explícita visível a olho nu de que no fim tudo vai dar certo e se ajeita quase que automaticamente. No fim das contas, o gol acaba saindo. Um comodismo resultante de experiências passadas bem-sucedidas. No Bayern Munique aflora vez por outra o tal do “Bayern Dusel”, ou seja: ‘estamos jogando mal, mas ao fim e ao cabo, a gente marca um gol e tudo se resolve’. Cansei de ver isto ao longo dos anos em alguns jogos da equipe bávara e, posso assegurar, não foram poucos.  Foi a mesma coisa que aconteceu claramente nas três partidas da Alemanha nesta Copa.

Deu certo apenas uma vez: foi contra a Suécia e, diga-se de passagem, tão somente por obra e graça de Toni Kroos tendo como coadjuvante Marco Reus que teria dado a sugestão de bater direto em vez de levantar a bola sobre a grande área.

Outro fator negativo foi que no decorrer dos últimos meses houve uma transmutação da seleção alemã: de uma equipe que representa o país ela se tornou um produto que representa os patrocinadores. O mercado desta vez falou mais alto. Mesmo durante a preparação na Itália, houve compromissos comerciais onde a presença, se não de todo elenco, mas de alguns jogadores era requisitada. Foi criado um slogan pela Agência de Propaganda da Mercedes-Benz para a seleção: “The best neVer rest”, onde o V maiúsculo representava tanto a palavra Victory como o penta- campeonato.

Além dos compromissos com patrocinadores, eram organizados também encontros com os torcedores alemães. Intermináveis sessões de autógrafos diárias com fotos e vídeos eram programadas para atender e satisfazer o Departamento de Relações Públicas da Federação Alemã de Futebol e, mais uma vez, os patrocinadores.

No frigir dos ovos, a Mannschaft se transformou num produto altamente rentável sujeito às regras impiedosas do mercado. A maior vítima desta imposição mercadológica acabou sendo o futebol e, no caso da seleção alemã, um futebol infrutífero e, certamente, indigno de um campeão mundial.

E sobreveio o crepúsculo dos deuses.

Gerd Wenzel

 

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    4 thoughts on “Uma breve história do crepúsculo dos deuses

    1. Ou seja, repetiram a fórmula de 2006 do Brasil. Vindo de 2002 campeão, chamaram os medalhões e encheram de mídia e torcida ao invés de focar na preparação. Acontece. Veremos em 2022.

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